Esse é um dos vários texto que digitei para expor no facebook, mas como na maioria, acabei ocultando por que pouca gente quer ler textos longos. Particularmente me orgulho desse texto, achei ele legal. Tire tuas próprias conclusões e dê sua opinião nos comentários. Ficarei feliz em ler.
Vamo dar uma voltinha sobre o dia do Índio? Não vai demorar.
Ainda posso ver ao horizonte desse mar extenso caravelas de madeiras se
aproximando lentamente em direção a praia. Nossas tribos nunca tinham
visto algo tão genuíno e, ao mesmo tempo, tão refinado. As velas
estufadas acobertavam pessoas brancas que mais se pareciam com macacos
que por aqui habitavam pela agitação em que se moviam dentro das casas
de madeira flutuante. O nosso chefe, já velho, nos deu sinal para
observarmos o que sairia das casas com cautela, afinal, nunca recebemos
visita de tal proporção que não fossem dos nossos rivais sobre terra.
Pela peculiaridade da situação acreditei que seus gestos tivessem algum
significado, mas todos perceberam o medo e a ansiedade deles pelo
contato conosco naquele momento raro. Era totalmente recíproco. Não
sabíamos que aquela pele branca coberta de panos trazia consigo uma
capacidade destrutiva tão horrivelmente grande. A partir desse momento
se inicia cinco séculos de saqueamento, expulsão, exploração,
escravização e mortes precedidas da nossa discriminação, extermínio e
expropriação pelos mecanismos legais criados por esses homens que ao
contrário da nossa antiga civilização — na qual não tinha esse nome, mas
vós falo para que entendas minha linguagem —, vivem através dos séculos
para dar continuidade a sua sociedade.
Atacam-nos a todo o
momento por não termos suas caixas quadradas falantes que guiam esses
homens brancos dizendo-lhes incessantemente o que fazer, o que desejar,
como se comportar, como se sentir, quem odiar. Rotulam-nos de
preguiçosos por que não compreendemos a algumas divisões nas formas de
trabalho. Separam diversão, trabalho e subsistência. Tentaram, por cinco
séculos, nos forçar a trabalhar para eles e por cinco séculos
resistimos e morremos um a um, sem entender por que a ganância que
motivava esses homens acabou com nossas famílias e irmãos. Simplesmente
trabalhávamos para viver e não vivíamos para trabalhar como queriam
eles, nos quais fomos conhecendo aos poucos em suas diversidades.
Todos carregavam a mesma ganância, do holandês ao alemão. Era-nos
incompreensível a necessidade compulsiva por esses objetos tão simples e
abundantes que cercam nossas matas gigantescas. A extração da árvore
era efetuada de modo que poderiam banhar-se no líquido viscoso que dela
escorria, fazendo-me indagar e descobrir, em uma conversa, que para eles
não lhes eram satisfatório apenas trazê-las para que seu rei usufrua de
tal inovação, mas que após sua morte seu filho possa usufruir dela e de
tudo mais que está em minha terra.
No inicio, intuíamos da
desnecessidade de tal perversidade para que os filhos de alguns possam
permutar em seu poderio econômico em detrimento da nossa exploração.
Digo "nossa", pois não há qualquer diferença entre nós e a terra em que
vivíamos. Mas eles nunca entenderam isto. Hoje nos repelem.
Freqüentemente estamos nas áreas de interesse das empresas que se
utilizam da grande caixa em forma esquisita para que as pessoas nos
vejam como subversivos, agressivos e anti-progressista por cultivar da
nossa cultura nos restos de terra que nossos antecedentes, ou melhor,
sobreviventes nos deixaram. Somos vistos como obstáculos para os patrões
que, ainda, buscam o lucro exagerado como era à cinco séculos atrás
quando eu ainda existia em corpo antes de apontarem o cano cinza para
mim e meus irmãos na segunda vez em que vieram.
Se esses homens
pudessem enxergar aquilo que eu não disse. Se pudessem perceber que não
precisamos de mais do que podemos carregar. De que tudo que precisamos
nós podemos construir ou encontrar, que a vida sob angustia é
inadmissível, que nenhum descendente vale o sacrifício dos que estão
vivos e nem sua escravização, que a terra nos alimenta e assim também
alimentará nossos filhos da mesma forma, se percebessem que as
necessidades da vida são as mais básicas possíveis, talvez entendessem
que a vida é muito mais simples do que nos fazem parecer ser. Pra isso
seria necessário que rompam com tudo que impõem à elas. Seria necessário
que se permitissem descobrir que o progresso não é a finalidade da
existência humana e que caminhamos na vida lado a lado e não competindo.
Se eles tomarem consciência de que a vida não é um eterno acumulo, eles
poderão fazer algum uso do que restou da nossa terra de forma que seus
filhos não precisem nascer carregados de bens e possam viver para
existir como nossos filhos faziam.
- Juan.
Texto inspiração: quando o sangue nas tuas veias regressar ao mar,
e a rocha nos teus ossos regressar ao solo,
talvez então te lembres que esta terra não te pertence,
és tu quem pertence a esta terra.
- Não encontrei a fonte.