terça-feira, 19 de maio de 2015

Nessa vida, nenhum afazer deveria ser um peso. Essa vida deveria ser a melhor vida que já tivemos.

 O motorista e a cobradora acordaram putos. Ambos poderiam ter levantado melhor nessa manhã, mas ninguém sabe o que levou isso a acontecer. Ele fechou a porta da frente do onibus e nem viu quem é que tava entrando, poderia ser minha tia. A cobradora, por sua vez, não se importou em dar bom dia pro sujeito de idade que sentara na parte frontal do onibus, alguém deveria fazer alguma coisa a respeito [ironia]. O que é que acontece na vida de alguém para que ela veja a vida com uma carga a se carregar, como se cada dia houvesse de se suportar por alguma incapacidade de mudar a rota das velas do seu barquinho à deriva. Que tipo de mentalidade é implantada na vida das pessoas que as fazem multiplicar a indiferença dentre seus colegas de convívio? Todos os indivíduos pareceram frustrados dentro daquele onibus, por um momento cheguei a pensar que ninguém gostaria de estar ali. Poderia até achar, talvez, que eles não soubessem qual é seu objetivo nessa breve passagem pela vida. Seria muito rude eu utilizar de um ínfimo dos vários segundos que tenho de vida pra perguntar à eles? Isso me transformaria no Platão do subúrbio. Seria igual repelido, exceto que não fariam de mim alguém notório. Só um louco causando desconforto.

 Em todo local eu vejo a amargura, rancorosidade e, nos casos de maiores riscos, angústias irremediáveis. O que leva a tudo isso é a imposição mundana. A gente nunca acha culpados, saca? O mundo cria uma confusão na nossa cabeça, nunca conseguimos saber o que de fato queremos. Mas aprendi há algum tempo que a humanidade tem sido dominada por fazer as perguntas erradas, por isso tantos conflitos. Eu, afinal, sei muito bem do que eu não quero pelo menos. Não posso aceitar que seja natural um grupo de, pelo menos, vinte pessoas amontoadas em um mesmo ambiente não possam conversar entre si sem haver algum clima de animosidade ou discordância. Como se pode aceitar esses valores que são colocados a nossa frente todos os dias, como se fôssemos maquinas prontas para servir e só disso somos capazes, a falácia da objetividade... Não me resta dúvida de onde vem tanta gente indiferente, liberdade acorrentada, rebeldia morna. As pessoas, tenho certeza, conseguiriam encontrar a própria saída se as deixassem pensar sozinhas. Não queremos um comando sistemático de como viver e o que fazer. Não é difícil entender que no fim vamos todos morrer e nada disso fará sentido algum se não formos uma coletividade humana em rumo à algo que ainda não conhecemos, mas que fiquemos juntos em solidariedade e cooperação, não competição como a vida é apresentada.

 Permitamo-nos viver, porra. Não acordei de manhã cedo para mandar ninguém tomar no cu. Não me dirigi até a sala de aula para que eu ficasse absorvendo conteúdos que não me ajudam a transformar a sociedade minimamente enquanto fico calado como uma porta. Ócio é coisa de europeu rico, eu quero trabalhar, produzir, conhecer, construir. Tenho absoluto repúdio pela sociedade da forma como ela me é mostrada. Uma sociedade que não interessa a ninguém que ande por ela, talvez para outros. Pessoas em função do capital escravizam a humanidade em um crime moral milenar, convertendo amarguras em dinheiro. Se nos permitimos pensar fora do cotidiano, abriremos um leque de oportunidades intermináveis, que trarão à vida sabores, cores, amores. Não podem me convencer que a vida é só isso e já basta. Não consigo aceitar que um dia sequer é perdido ou em vão, eu quero me libertar todos os dias pois, também, vivo todos os dias. Vender-me é aprisionar-me com a chave dentro de mim. Na verdade, a libertação vem com a ausência do medo que nos prende. Temos medo de não aceitar as imposições que nos governam sob o risco de ficarmos fora da caixa. E nela, somos apagados dentro da História por não fazer-nos ouvir. Poderia fazer uma analogia com um gato de estimação, no qual tentamos prender dentro de casa para que, na rua, ele não morra ou se machuque, sem jamais nos perguntarmos se não era à ele preferível viver pouco e ser livre.


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